365 dias na estrada, reflexões e os encontros humanos que transformam a jornada
Uma viagem de bicicleta não é apenas um deslocamento físico ou um desafio atlético. É uma imersão na velocidade do mundo real, onde a vulnerabilidade de estar sobre duas rodas desfaz preconceitos, aproxima desconhecidos e revela a extraordinária generosidade humana. Esta é a história e os aprendizados de quem pedalou 365 dias pela América do Sul.
Antes de colocar a bicicleta na estrada, eu tinha uma rotina estabelecida, um emprego estável em Ourinhos/SP e todas as desculpas convenientes que acumulamos para adiar aquilo que realmente sonhamos. Fazer uma viagem de bicicleta de longa distância não exige bravura sobre-humana, nem equipamentos importados de última geração. Exige apenas uma coisa: o desprendimento de dar a primeira pedalada para fora de casa.
No segundo dia de viagem, sofri uma queda e quebrei o punho. Fiquei 50 dias imobilizado, perdi condicionamento físico, mas ganhei a mais importante lição: cortei metade da bagagem. Percebi que carregamos na bicicleta o mesmo excesso de apego e medos que acumulamos na vida cotidiana.
Com uma bicicleta aro 26 adaptada, alforjes estanques e uma média orçamentária de R$ 30 por dia, pedalei por 1 ano inteiro: cruzei o litoral sul do Brasil, as pradarias sem fim do Uruguai, a vastidão desértica da Patagônia contra ventos implacáveis, cheguei ao Fim do Mundo em Ushuaia, subi a lendária Carretera Austral no Chile, enfrentei um mês de solidão no Deserto do Atacama, escalei a 4.700 metros no Altiplano Boliviano, desci em três horas vertiginosas para a selva amazônica no Peru e encerrei cruzando os rios da Amazônia brasileira até Belém do Pará.
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Ver o Roteiro com Mapa Interativo da América do Sul →Cenários onde o silêncio e a grandiosidade da natureza colocam a escala humana em perspectiva. Clique em qualquer foto para ampliar em tamanho natural:
3.650 m de altitude • Sal e horizonte infinito
O deserto mais árido da Terra • Imersão solitária
Geleiras suspensas, fiordes e rios glaciares
O Fim do Mundo • O ponto mais austral do planeta
3.812 m de altitude • Berço místico dos Incas
Passo a 4.725 m • Downhill de 3h para a selva
Quando comecei a pedalar, imaginava que a viagem seria sobre paisagens bonitas e fotografias. Mas com o passar dos meses, percebi que o que realmente transforma quem viaja de bicicleta são as pessoas. A vulnerabilidade de quem chega sobre duas rodas desperta o que há de mais nobre no coração humano:
Depois de um dia extenuante lutando contra o vento minuano no extremo sul do Brasil, parei em um posto de combustíveis e perguntei ao atendente, chamado Igor, se poderia acampar ali. Ele me apontou um restaurante antigo desativado. Enquanto eu montava a barraca, fomos conversando, quebrando as barreiras do receio e ganhando confiança mútua.
Ele morava ao lado do posto. Jantamos juntos na casa dele, assisti TV com a família dele na sala, e na hora de dormir ele deixou a porta que ligava a cozinha à garagem completamente aberta e destrancada na madrugada.
Ao planejar a travessia pelo norte do Brasil, todos me alertavam: "Você é louco, nem motoqueiro se arrisca a passar por ali sozinho, é perigoso demais". No primeiro vilarejo que parei, montei minha barraca nos fundos de um posto simples de beira de estrada.
Aquele momento aconteceu exatamente às margens da rodovia que todos pintavam como assustadora. As crianças não queriam nada em troca além de sonhar junto e tocar nos alforjes de um viajante que veio de longe pedalando.
Com o tempo na estrada, você aprende a ler o ambiente e a se desarmar. Desenvolvi um hábito simples nos dias em que o sol se punha e não havia camping por perto: passava pedalando por uma casa simples no interior, sentia o cheiro de comida caseira no fogão e parava no portão com um sorriso e a garrafinha de água vazia na mão.
Quem chega de bicicleta carregada não desperta ameaça; desperta empatia e admiração. A bicicleta é o veículo mais humano que existe porque você está fisicamente exposto, descalço de armaduras.
Na Reserva do Taim, no Rio Grande do Sul, acampei no posto dos bombeiros e deixei anotado em um papel o endereço do meu antigo site. Semanas depois, Vincent, um cicloturista franco-chileno pedalando do Rio de Janeiro rumo a Cuba, passou pelos mesmos bombeiros e leu meu bilhete.
Nos encontramos, nos tornamos grandes parceiros e pedalamos mais de 2.000 km juntos pela estepe patagônica. Éramos dois novatos inexperientes: ficamos sem água um dia no deserto, dividimos caminhoneiros que nos salvavam com água e aprendemos a pedalar tiros de 150 km por dia.
Em Copacabana, às margens do Lago Titicaca, eu queria embarcar com a bicicleta para conhecer a famosa Isla del Sol. O atendente da agência me convenceu: "Deixa a bicicleta aqui no escritório, na ilha você só vai carregar peso nas trilhas de pedra". A bike ficou estacionada na vitrine da agência, à vista de quem passava na calçada.
Durante sete dias meu maior patrimônio material esteve sob a guarda de um estranho que vi por cinco minutos. E ele honrou essa confiança com absoluta integridade.
Essa jornada inspirou milhares de pessoas em conferências pelo Brasil. Abaixo você pode assistir à apresentação oficial no TEDx e também à palestra completa e aprofundada de mais de 1 hora apresentada no Congresso Nacional de Cicloturismo (CNVNC):
A essência da expedição, a decisão de tirar o sonho do papel e a transformação de pedalar 365 dias pela América do Sul.
Congresso Nacional de Cicloturismo (CNVNC). Relato aprofundado com logística de acampamento, equipamentos reais, rotas e perrengues. ★ Mais de 26.000 visualizações e 175 comentários.
Trilhando Sonhos: 365 dias de bicicleta pela América do Sul reúne o diário detalhado da expedição, bastidores dos perrengues, reflexões e fotos coloridas exclusivas acessíveis por QR Codes em cada capítulo.