Palestra Oficial • TEDx

O Menino que Deixei para Trás

Thiago Fantinatti no palco do TEDx UnilasalleCanoas com foto de Seu Antônio na projeção

No palco do TEDx UnilasalleCanoas: projetando a foto de Seu Antônio, o homem que me acolheu em uma noite de tempestade no Rio Grande do Sul.

Quando recebi o convite para subir ao palco do TEDx UnilasalleCanoas, me deparei com o maior desafio de síntese da minha vida: como resumir 365 dias de solidão, perrengues extremos, desertos silenciosos, montanhas andinas e mais de 15.500 km pedalados em uma mensagem de 15 minutos?

Ao olhar para trás, percebi que a cicloviagem pela América do Sul nunca foi apenas sobre quilômetros ou superação esportiva. Foi, antes de tudo, uma jornada de resgate. Aos 27 anos, eu havia conquistado o que a sociedade chama de estabilidade: comprei um carro, vesti um terno, ganhei dinheiro... mas vi o menino curioso que eu fui se perder no caminho.

Abaixo compartilho a transcrição integral da minha palestra, dividida nos seus momentos mais marcantes, com fotos reais de cada passagem citada e, ao final, o vídeo completo da apresentação.

"A gente não pode deixar que o menino e a menina que nós carregamos dentro de nós se perca pelo caminho. Porque nós já nascemos com esse olhar de curiosidade e deslumbramento sobre o mundo."

— Thiago Fantinatti, TEDx

01. O Menino, as Tempestades e a Sacola Furada

Eu queria passar uma mensagem para vocês hoje aqui... bastante curta.

Eu sempre tive muita curiosidade sobre o mundo desde criança. Eu já deixava minha mãe louca desde pequeno: eu subia no telhado em dias de tempestade para ver os raios mais de perto.

Uma vez, com uns 11 anos de idade, eu decidi ir pescar com um vizinho, de bicicleta. A gente pedalou uns 4 km até uma lagoa, sem avisar ninguém. E no final da tarde eu voltei com um peixe vivo numa sacola plástica pendurada no guidão da bicicleta. Eu vim de casa em casa pelo caminho pedindo água para manter o peixe vivo, porque a sacola estava furada.

E na volta para casa, eu levei um puxão de orelha da minha mãe, né, e um abraço apertado.

02. A Perspectiva Cósmica das Estrelas

Eu sempre tive uma ligação muito forte com o mundo natural. Passava noites em claro olhando o céu. Eu morava numa cidade pequena, tinha um céu maravilhoso. E eu viajava longe no meio das estrelas. Aos 14 anos sabia o nome das cem estrelas mais brilhantes do céu. Isso de certa forma me formou.

Eu me lembro de uma vez, o meu pai chegou para mim e disse: "Filho, seu avô morreu. Ele foi atropelado."

Eu me lembro que no minuto seguinte eu já estava de novo no quintal olhando as estrelas. Isso me dava uma perspectiva cósmica e me colocava no meu devido lugar: infinitamente pequeno, mas também parte de algo muito maior.

03. O Terno, o Carro e o Sonho Tirado da Gaveta

Então eu cresci, ganhei dinheiro, comprei um carro, comprei um terno e desaprendi um pouco a fazer essas coisas. E via aos poucos aquele menino ficando distante. Isso não fazia muito sentido para mim.

Então aos 27 anos eu resolvi sair em busca daquele menino. E tirei um sonho antigo da gaveta, que era viajar de bicicleta pela América do Sul.

Eu viajei 15.500 km aproximadamente por 6 países em 365 dias. Fui do Atlântico ao Pacífico, dos Pampas ao Atacama, dos Andes à Amazônia.

04. A Fratura no Segundo Dia e a Luta Mental

E, bom, esse sonho não teve um começo assim tão simples. No segundo dia de viagem eu tive um acidente e fraturei o punho esquerdo. Me machuquei também bastante.

O meu companheiro de viagem nesse trecho, os primeiros 15 dias, o Martinho, ele teve a presença de espírito de registrar esse momento. E não só fisicamente foi difícil — é lógico que eu tive que voltar para casa e 56 dias depois pude recomeçar —, mas psicologicamente também foi complicado. Porque eu saí da minha rotina, deixei amigos, família, namorada, trabalho, em busca desse sonho.

05. Por que Desistir Não Resolve os Problemas

Sempre me perguntam se eu tive medo ou pensei em desistir pelo caminho.

Sim. Quase diariamente, ou nos dias mais difíceis, a gente pensa em desistir. Mas quando você está isolado numa região selvagem, sozinho, desistir não te tira dali, não resolve os seus problemas como num passe de mágica.

E então, quando o dia ruim termina, um novo dia começa. E os motivos, os problemas do dia anterior, os motivos para desistir, já não existem mais. E você segue.

06. Duas Noites de Pavor: Patagônia e Amazônia

Uma vez acampado aqui no sul da Patagônia argentina, à meia-noite e cinquenta começou uma forte tempestade. A pior tempestade que eu já vi na minha vida.

Eu me lembro que parecia que havia uma multidão de pessoas golpeando a barraca assim por fora. Eu passei a noite em claro segurando a barraca por dentro. Tive que colocar parte da minha bagagem em cima de mim para evitar que eu voasse com a barraca. Porque quando eu montei o acampamento não havia vento, e eu não prendi, não fixei a barraca corretamente ao chão.

Foi um estresse tão intenso que eu tive dores de estômago e acordei de manhã com um pouco de lama no rosto assim.

Na Amazônia peruana, depois de ter passado por um pequeno povoado, eu não consegui um lugar adequado para acampar, não me senti totalmente seguro. Então me afastei do povoado alguns quilômetros, já no escuro absoluto — que seria a minha segurança garantida: se ninguém me visse acampando ali, estaria seguro.

Acampei ao lado da selva e no meio da madrugada um animal se aproximou da barraca. Eu pude ouvir os passos e ouvi a respiração. Não sei que animal era, mas eu me lembro bem do medo e de ter passado a madrugada acordado com os olhos arregalados no escuro absoluto, com o canivete à mão, como se aquilo fosse me salvar de alguma forma, né?

07. Vincent, Ralph e a Convivência a Dois

Eu tive 11 companheiros nesse ano de viagem. 11 ciclistas que estavam viajando também. Alguns fazendo viagens mais curtas, outros viagens mais longas que a minha. Desses 11 eu posso citar os mais importantes:

O francês Vincent, que ficou 45 dias comigo pela pampa argentina lutando diariamente contra o vento. A gente estava indo para o sul e o vento vinha do sul. Então foram 2.000 km com vento contra.

E também posso falar do Ralph, um alemão que passou 54 dias comigo. Foram 54 dias viajando juntos, convivendo 24 horas por dia. Estar acompanhado é muito bom porque te dá alguma segurança para acampar em lugares que você não acamparia sozinho, né? Companhia nos momentos difíceis, nas alegrias... Mas não é sempre um mar de rosas.

Com ele, por exemplo, nós éramos pessoas muito diferentes em alguns aspectos. E nós brigávamos às vezes, discutíamos por motivos bobos. Chegamos a viajar dois ou três dias sem se falar, juntos assim. E eu me lembro dele voltando a falar comigo num acampamento, da barraca dele me pedindo para colocar uma música do Pink Floyd. Então a gente tinha essa... No final o saldo foi positivo para a gente assim. É um grande amigo, uma pessoa que eu respeito muito.

08. Dia 254: O Êxtase no Atacama e a Via Láctea

A solidão sempre foi uma faca de dois gumes para mim. Ao mesmo tempo que nos dias difíceis ela acaba sendo mais um ponto para ser superado, nos momentos de alegria era um deleite para mim. E cruzar regiões isoladas do continente sozinho fazia parte do plano. E eu vivia aquilo intensamente. Foi um momento de descoberta e autoconhecimento para mim.

Nesse dia, o dia 254 para ser mais exato, eu havia pedalado 71 km. E como acontecia nos dias no deserto do Atacama, não havia uma chegada a algum lugar. Simplesmente havia deserto.

Então teria que acampar. Escolhi esse ponto para montar o acampamento. E me afastei uns 300 metros da estrada para buscar mais tranquilidade. Apesar do tráfego ali ser muito pequeno, eu queria um pouco mais de distância da estrada. E então comecei a olhar o horizonte ali antes de montar a barraca. E não havia sinal da presença humana onde eu olhasse. Só pedras, areia, o céu azul.

Então eu fui longe, entrei num transe assim. Era o ápice do que eu havia sonhado para mim naquele momento. Então uma brisa veio, me despertou e disse que era hora de montar acampamento. O sol já estava se pondo. Corri para a beira da estrada para buscar pedras para colocar sobre as alças da barraca para evitar que ela voasse com o vento forte, porque o solo é muito duro ali e eu não conseguia colocar as estacas para fixá-la no chão. E dormi.

"No meio da madrugada eu despertei. Abri o zíper da barraca e vi isso: a Via Láctea cortando o céu de um lado a outro. Não havia sinal de luzes de cidades na linha do horizonte. Eu estava a 200 km da cidade mais próxima. Tudo que eu havia vivido passou como um filme na minha cabeça. Já não conseguia mais separar a fantasia da realidade. Por um segundo, aquelas palavras como nirvana ou iluminação fizeram sentido para mim."

— Thiago Fantinatti, Dia 254 no Atacama

09. A Lei Não Escrita e o Convite de Seu Antônio

Pela manhã eu dei uma olhada no meu estoque de água: tinha mais meio litro de água. E seria um dia difícil, porque não existem fontes naturais de água em pelo menos 1.500 km.

E aí eu vi os primeiros raios de sol refletindo num veículo que vinha a um quilômetro, um quilômetro e meio de distância. Saí correndo descalço com a garrafa vazia na mão, fui até a beira da rodovia, mostrei a garrafinha vazia. Um caminhão parou. É uma lei não escrita do deserto de distribuir água. E ele me deu 3 litros de água, duas garrafas geladas e uma maçã.

Essa experiência também me fez confiar nas pessoas, confiar em estranhos. Mesmo que eu gostasse de resolver as coisas sozinho, eventualmente você vai ter que confiar em alguém.

Tem uma história aqui, aliás aqui perto no extremo sul do estado do Rio Grande do Sul, que ilustra bem isso:

Eu havia passado a noite num pasto, numa região rural. A noite não tinha sido muito boa, não. O chão era meio irregular e não foi muito confortável. O meu café da manhã também foi fraco, não foi muito bom. Montei a bagagem na bicicleta para começar mais um dia e, depois de pedalar apenas 100 metros, passando à frente da casa de um homem, uma casinha simples de madeira, ele me convidou. Ele queria que eu ficasse na casa dele. Seu nome era Antônio.

E ele insistiu. Apesar de eu estar começando o meu dia, ele insistiu e eu aceitei o convite. Passei o dia com ele, um homem simples. Me contou uma infinidade de histórias, me mostrou seus animais, disse que havia uma cama disponível — estava cheia de excrementos de cupim, mas estava disponível, e foi onde eu passei a minha noite. Pude me banhar.

E então uma forte chuva começou. Eu me sentia afortunado de ter aceitado o convite. E ele fez uma janta para a gente. Ele cozinhou. Ele não tinha hábito de jantar, ele fez questão de cozinhar para mim.

Então, fatos como esse mudaram para sempre a minha forma de ver as pessoas. Quantas pessoas fariam isso? Eu faria isso? Será que eu faria isso por um estranho passando à frente da minha casa? Como sair ileso de uma experiência como essas? Isso aconteceu inúmeras vezes, dezenas, talvez uma centena de vezes durante o ano de viagem.

10. A Felicidade Efêmera e o Menino Reencontrado

Com um ano de viagem, eu me sentia realmente invencível e forte assim, sabe? Eu sentia que podia dar a volta ao mundo se quisesse. Aos poucos eu estou digerindo ainda o que eu vivi naquele ano. Leva tempo, né?

E eu buscava a felicidade, de certa forma. Acho que é uma busca constante de todos. Encontrei. Só que também descobri que ela é efêmera. Mesmo sendo temporária, ela está ao alcance de todos. E não é um bem que você pode adquirir, comprar, acumular. Não é um produto.

E aquele... aquele menino que eu procurava?

Eu encontrei aquele menino.

Eu encontrei aquele menino com medo do desconhecido, o coração disparado em algumas situações. Encontrei aquele menino no céu estrelado do deserto. Encontrei aquele menino na alegria de se estar onde se sonhou estar um dia.

E também vi aquele olhar nas crianças que eu encontrei pelo caminho: um olhar de curiosidade e deslumbramento pelo mundo que nos cerca.

E hoje eu vejo esse mesmo olhar na minha filha, que é uma pessoa que só existe hoje porque um dia eu resolvi realizar o meu sonho.

A gente tem que tomar cuidado, a gente não pode deixar que o menino e a menina que nós carregamos dentro de nós se perca pelo caminho. Porque nós já nascemos com esse olhar de curiosidade e deslumbramento sobre o mundo.

Essa era a mensagem que eu queria passar hoje para vocês aqui. Muito obrigado.

Apresentação ao Vivo • TEDx

Assista à Palestra na Íntegra

Confira a gravação oficial da minha palestra no TEDx com o relato ao vivo das histórias, reflexões e imagens da expedição.

Duração: 15 min • Palestra ministrada por Thiago Fantinatti no TEDx UnilasalleCanoas

Comentários de Leitores

“Estou gostando muito da forma simples e descomplicada do autor se expressar. Conta a história como se estivesse conversando com a gente após chegar da viagem ao tempo em que nos mostra as fotos de viagem. Obrigada por me deixar viajar com você e participar da sua aventura sobre rodas.”

— Ana Rosa de Abreu — Amazon

“Pra mim é um dos dois melhores livros do tema 'viagem de bicicleta'. Poucos conseguiram passar tão bem o que foi a aventura quanto o Thiago. E, ao contrário de muitos, ele não fugiu de contar as partes ruins da viagem. Difícil é ler e não querer se jogar na América do Sul com a sua bike imediatamente.”

— Christian — goodreads

“O livro redefiniu meu conceito sobre bicicleta e a narrativa é tão cativante que me senti viajando junto com o autor. Recomendo!”

— Thiago Luis — Amazon

“Encara a viagem não somente com detalhes técnicos, mas principalmente com os sentimentos que o autor sentiu em seu caminho. Livro envolvente e inspirador.”

— Raf — Amazon

Outros Artigos & Guias

10 Melhores Roteiros de Cicloturismo no Mundo

10 Melhores Roteiros de Cicloturismo no Mundo

Carretera Austral, Pamir Highway, Shimanami Kaido e mais com altimetrias e mapas.

Guia Mundial Trilhando Sonhos
5 Melhores Circuitos de Cicloturismo no Brasil

5 Melhores Circuitos de Cicloturismo no Brasil

Vale Europeu, Caminho da Fé, Estrada Real, Araucárias e Lagamar com mapas e altimetria.

Guia Nacional Trilhando Sonhos
Viagem pela América do Sul

Viagem de Bicicleta pela América do Sul

Relato e história de 365 dias pedalando pelo continente. Mapa interativo, rotas, equipamentos e custos.

Expedição 365 Dias Trilhando Sonhos
Thiago Fantinatti

Sobre Thiago Fantinatti

Sou paulista de nascença e paranaense de coração. Em 2009, resolvi realizar um sonho ousado: larguei a rotina urbana para pedalar 16.000 km pela América do Sul em solitário durante um ano inteiro.

Dessa vivência nasceu o livro Trilhando Sonhos. Acredito profundamente no poder da bicicleta como instrumento de transformação humana, liberdade e sustentabilidade.


Fale comigo

Entre em Contato

  • E-mail thiagofantinati@gmail.com